2016 Australiano diz que comitê lhe deve R$ 1,6 mi referente à ‘taxa de sucesso’ da candidatura do Rio para os Jogos. FILIPE COUTINHO
LEANDRO COLONDE BRASÍLIA
O COB (Comitê Olímpico Brasileiro) está no centro de uma briga milionária de
bastidores do mercado mundial olímpico sob a suspeita de não pagar uma dívida da
candidatura dos Jogos do Rio.
Um dos mais renomados consultores internacionais sobre Olimpíada, o
australiano Craig McLatchey acusou o COB, em entrevista à Folha, de não pagar
uma comissão que inicialmente era de US$ 1 milhão e passou para US$ 800 mil
(cerca de R$ 1,6 milhão na cotação atual).
O valor é referente a uma taxa de sucesso, acertada por escrito entre as
partes caso o Rio fosse escolhido como sede da Olimpíada de 2016.
“O COB tem se recusado a cumprir as suas obrigações no âmbito do Memorando de
Entendimento com a EKS, que inclui, entre outras condições, uma taxa de sucesso
se o Rio fosse escolhido. Essa taxa não foi paga”, afirma.
O comitê, por sua vez, nega qualquer dívida. O caso pode parar na
Justiça.
Em 2007, quando o COB anunciou a candidatura do Rio, o comitê, presidido por
Carlos Arthur Nuzman há 17 anos, fez um acordo, por escrito, de cifras
milionárias com a consultoria EKS.
A empresa é sediada na Suíça e comandada por McLatchey, consultor ligado aos
Jogos Olímpicos de Sidney, realizados em 2000, e que atualmente trabalha na
candidatura de Istambul (Turquia) para sediar o evento em 2020.
No Rio, a tarefa de McLatchey era organizar os preparativos e orientar o COB
sobre como convencer o COI (Comitê Olímpico Internacional) a escolher a cidade,
que já havia perdido disputa anterior, para os Jogos de 2012.
Em troca da consultoria, a EKS deveria receber US$ 4,8 milhões (quase R$ 10
milhões), além de US$ 1 milhão (R$ 2 milhões) como bônus caso o Rio fosse
escolhido, segundo o acordo de 2007.
“A EKS fez um acordo global com o COB e forneceu serviços substanciais ao
longo de vários anos, que foram de fundamental importância para o sucesso da
candidatura do Rio”, diz o consultor.
Após esse acordo, o governo federal decidiu bancar os preparativos da
candidatura do Rio, firmando diversos convênios com o COB, um deles, em 2008,
específico para pagar a consultoria da EKS, contratada sem licitação pelo comitê
brasileiro.
O COB fez então novo contrato com a EKS para transferir R$ 11 milhões, algo
próximo aos US$ 4,8 milhões do primeiro acerto. O novo acordo excluiu a taxa de
sucesso.
Essa taxa não entrou no segundo contrato porque o Ministério do Esporte não
arca com esse tipo de despesa.
Após o Rio ser escolhido a sede, o comitê brasileiro quis só manter o valor
repassado pelo governo, sem honrar a taxa de sucesso, afirma o consultor
internacional.
Houve então uma negociação para baixar a taxa de US$ 1 milhão para US$ 800
mil. Mesmo assim, McLatchey diz que nada foi pago.
Em 2012, como a Folha revelou em setembro, o governo federal fez um novo
pagamento para o COB repassar à EKS. A justificativa era que, durante o convênio
em 2008 e 2009, houve uma forte desvalorização cambial.
Assim, a EKS recebeu mais R$ 2 milhões, com dinheiro público. Esse valor, por
coincidência, é similar à taxa de sucesso que a EKS cobra como dívida do
COB.
OUTRO LADO
Comitê afirma que contrato foi
‘integralmente cumprido‘
DE BRASÍLIA
Por meio de nota, o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) negou que tenha
qualquer dívida com a empresa de consultoria EKS e afirma que o contrato foi
cumprido.
“A relação contratual entre o Comitê Olímpico Brasileiro e
a EKS está encerrada. O Comitê Olímpico Brasileiro cumpriu integralmente com
todas as suas obrigações, delas recebendo a devida quitação, nos termos da lei”,
informa a entidade.
O COB, no entanto, não forneceu detalhes sobre quais cláusulas do acordo
foram cumpridas, tampouco sobre a taxa de sucesso da candidatura do Rio para os
Jogos de 2016, sob a justificativa de que o contrato é sigiloso.
“Os termos, as cláusulas e as condições dos contratos celebrados pelo Comitê
Olímpico Brasileiro com a referida empresa estão revestidos de sigilo, conforme
[fora] expressamente acordado pelas partes contratantes.”
Questionada pela reportagem sobre se manteve um contrato “por fora” ao do
governo no qual estava prevista a taxa de sucesso, a entidade negou.
“O Comitê Olímpico Brasileiro não celebrou qualquer ‘contrato por fora’ com
as citadas empresas nem com qualquer outra”, informa.
“E suas atividades [do comitê] são regularmente fiscalizadas pelas
autoridades competentes, sem que qualquer sanção tenha sido jamais imposta”,
finaliza.
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