. Clarice Manhã . portal@d24am.com
Crianças, adolescentes e até adultos saem de casa por não conseguirem se
relacionar.
Foram registrados 222 desaparecimentos em Manaus este
ano, o equivalente a 97,4% do total deste tipo de ocorrências em 2011. Lima
Manaus - A falta de diálogo dentro
do lar é uma causa frequente entre os motivos que levam uma criança, adolescente
ou até mesmo um adulto a fugir de casa. Segundo dados da Delegacia Especializada
em Ordem Públicae Social (Deops), além dos homicídios e sequestros, a grande
maioria das pessoas desaparecidas some espontaneamente, motivada por conflitos
familiares.
Nos arquivos da Deops são comuns casos de jovens casais que fugiram de casa
para fazer sexo antes do casamento, usuários de drogas que se afastam da
família por vergonha do vício, maridos que deixam o lar para viver com amantes,
moças e rapazes que não conseguem assumir a homossexualidade para os pais ou
pessoas que simplesmente se cansam do cotidiano e passam alguns dias
“escondidas” em hotéis.
Titular da Deops há cinco anos, a delegada Catarina Saldanha afirma que em
todas essas situações faltou confiança e diálogo aberto. “As pessoas não se
conhecem. Moram debaixo do mesmo teto durante anos sem saber o que se passa com
o filho, com o marido, e aí se surpreendem diante da realidade”, explicou.
Um exemplo recente é a do estudante Reverson Colares Rocha, 17, que na última
quinta-feira simulou o próprio sequestro após acreditar que havia perdido as
irmãs, de 6 e 9 anos, durante um passeio à Cidade da Criança, na Avenida André
Araújo, no Aleixo, zona centro-sul de Manaus. Após ser localizado, o rapaz disse
que não quis voltar para casa por remorso e decidiu ir para a casa de um amigo
para não ter que voltar para a casa.
Catarina afirma que nos casos de desaparecimento de adolescentes, os amigos
têm mais informações úteis do que os familiares.
“Têm vezes que perguntamos para uma mãe se a filha desaparecida namora e ela
se ofende, afirma que a menina só pensaem estudar. Aíconversamos com os colegas
da escola e descobrimos que a menina está num relacionamento há meses,
superapaixonada e com medo da reação dos pais”, afirmou.
A delegada afirma que o contrário também acontece: pais que fogem dos filhos.
Recentemente uma moça de 23 procurou a delegacia porque a mãe estava sumida há
três dias.
Durante a investigação, a mulher foi encontrada na casa de uma amiga e
informou que saiu de casa sem avisar porque estava magoada com a filha. “A jovem
disse que a mãe devia morrer logo, ela se ofendeu e sumiu sem deixar
satisfação”.
Diálogo
Para a assistente social Eneida Ribeiro, a dificuldade de diálogo entre as
famílias é reflexo de uma tendência moderna no estilo de vida. Ela afirma que a
quebra de hábitos tradicionais, como sentar à mesa para uma refeição
compartilhada ou assistir televisão juntos, contribui para o isolamento dos
entes familiares.
“Hoje muitas casas têm três ou quatro televisões, uma em cada quarto. Assim,
tanto os pais não têm acesso ao conteúdo da preferência dos filhos, quanto
perdem a oportunidade de conversar sobre os temas que surgem na programação, o
que seria uma boa oportunidade para saber como cada um pensa”.
Especialista em relações afetivas, Eneida observa que a fuga de casa é uma
atitude extrema, que pode ser evitada. A assistente social destaca que o
primeiro passo para melhorar a comunicação é a observação e exercício da
tolerância.
“Nós todos precisamos aprender que cada pessoa é única em seu jeito de ser, e
quem ama cuida, mas aceita”. Ela orienta as famílias a buscarem atividades
prazerosas em grupo e buscar qualidade nos momentos de convívio.
Depois do susto de ter o filho desaparecido por quase três dias, a advogada
Jaqueline Menestral, 51, conta que superou as crises com o rapaz. As brigas na
família começaram na escolha do curso universitário de Leandro Menestral, que
para não contrariar a mãe decidiu fazer Direito quando queria estudar Biologia.
“Eu via que ele estava infeliz, mas achava que era uma decisão que faria bem ao
futuro dele”, conta.
Depois de três semestres na faculdade, Leandro não voltou um dia da aula. Ele
foi localizado 57 horas depois, hospedado sozinho em um motel da cidade.
“Lembro que eu saí da aula e não queria ver ninguém. Meus amigos me diziam
uma coisa, minha mãe dizia outra e eu não conseguia mais pensar por mim mesmo,
queria estar em paz”. Hoje ele se prepara para prestar o vestibular novamente,
vai tentar Biologia, e conta com o apoio da mãe.
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