FONTE: http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,pacote-da-copa-levado-a-fifa-e-peca-de-ficcao,872215,0.htm?reload=y
Pacote da Copa levado à Fifa é 'peça de ficção'
Sem projeto, parte das obras não ficará pronta a tempo. TCU e MP cobram exclusão das propostas que flexibilizam licitações
Marta Salomon - AE
BRASÍLIA - O retrato das obras da Copa do Mundo que a comitiva brasileira
apresentou à Fifa, para “acalmar” seus dirigentes, está longe da realidade,
mostra cruzamento de dados acompanhados pelo governo, pelo Tribunal de Contas da
União e pelo Ministério Público. A maior parte das obras para transporte de
torcedores metrôs, Veículos Leves sobre Trilhos (VLT) e corredores de ônibus nem
sequer tem projetos, e as licitações estão atrasadas. Essa é a fatia mais cara
das obras financiadas com dinheiro público: o custo supera R$ 11 bilhões, quase
o mesmo valor previsto para estádios e os aeroportos das 12 cidades-sede,
juntos.
O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, levou à Suíça uma nova versão da chamada
“matriz de responsabilidade”, o pacote de obras da Copa, que reúne os
compromissos assumidos pelos organizadores com a infraestrutura do evento. O
documento já exclui alguma das obras previstas em janeiro de 2010, data da
primeira matriz, como o corredor de ônibus (BRT) de Salvador.
Anota ainda, aumento acima de 25% do custo de algumas obras. Outras tiveram o
prazo de conclusão ajustado até maio de 2014. Mas há prazos irreais, revela
olhar mais atento no documento.
Um exemplo é o VLT de Brasília. Quase dois anos depois do início previsto
para a obra, ela se resume hoje a um monte de tapumes a atrapalhar o trânsito
num dos acessos ao Plano Piloto. Na quinta-feira, o Ministério Público federal e
do Distrito Federal recomendaram a exclusão da obra do pacote da Copa, que dá
direito a licitações mais flexíveis, por meio do Regime Diferenciado de
Contratações (RDC). A eventual dispensa de licitação a pretexto do prazo curto
será considerada ilegal, alertam os procuradores.
“A situação emergencial decorre apenas de fato imprevisível. Como a Copa tem
data certa, é inaceitável esse tipo de desculpa”, disse o procurador Paulo
Roberto Galvão, um dos integrantes do grupo de trabalho do Ministério Público
para a Copa.
As obras de mobilidade urbana da Copa também contam com empréstimos que podem
ser pagos em até 30 anos, depois de um prazo de carência (sem pagamentos) de
quatro anos, além de juros de até 6% ao ano. O dinheiro vem do FGTS.
Brasília
não é um caso isolado. “Obras que não vão ficar prontas a tempo da Copa não
podem contar com os benefícios do Regime Diferenciado de Contratação e dos
limites de endividamento dos Estados, há um limite temporal e o seu
descumprimento é gravíssimo”, diz o procurador Athayde Costa, coordenador do
grupo. Ele disse que o documento levado pela comitiva brasileira à Suíça “parece
peça de ficção”.
Sem projeto. Das 12 cidades-sede, a situação mais complicada
é a de Porto Alegre. A cidade tem o maior número de obras de mobilidade urbana
previstas para o Mundial: dez, num total de 48 projetos.Nenhuma delas conta com
o projeto básico. As licitações não foram iniciadas, como em outros oito casos,
mostra acompanhamento do TCU.
“A apenas dois anos e dois meses do evento, apenas 4,1% do montante total
financiado foram desembolsados e 72% dos empreendimentos com financiamento
contratado ainda não tiveram o contrato de execução das obras assinado, sendo
que, desses, 75% tiveram seus contratos de financiamento assinados há mais de 18
meses”, contabiliza ainda o TCU.
O tribunal cobra do governo responsabilidade no estabelecimento de prazos
para projetos tocados por Estados e municípios. “Deve-se assumir o peso político
dessa tomada de decisões”, diz o ministro Valmir Campelo no voto aprovado na
semana passada.
“Essa decisão tem de ser colegiada”, alega Luiza Gomide, diretora de
mobilidade urbana do Ministério das Cidades. “Fatalmente, em algum momento, terá
de ser tomada”. O ministério aguarda uma nova rodada de visitas a campo para
apresentar um retrato mais fiel do ritmo das obras.
Em junho passado, a presidente Dilma Rousseff decidiu suspender o
financiamento para as obras que não tivessem sido iniciadas até dezembro de
2011. Em setembro, o governo anunciou que aceitava afrouxar os prazos de
licitação das obras, contanto que elas ficassem prontas até 2014. O resultado é
que os Estados e municípios se comprometem a cumprir prazos irreais. E o governo
federal, por ora, aceita.
Na nova matriz de responsabilidades, o monotrilho de São Paulo tem prazo de
conclusão previsto para maio de 2014– um ano e dois meses depois da previsão
inicial. O custo do empreendimento já aumentou em mais de 25%, registra o
documento. O contrato com o consórcio de empresas foi assinado em setembro
passado. Mas o projeto básico da Linha Ouro ainda não teria sido concluído,
segundo informações repassadas pelo governo.
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