A COPA (DO MUNDO) DA FIFA
Hoje, estou em Zurique e escrevo esse blog da sede da Fifa. Na realidade, de
um anexo à Fifa, já que a entrada de jornalistas ao edifício central é
rigorosamente controlada.
A cupula da Fifa recebe com todas as honras uma delegação brasileira de peso
para tomar decisões importantes sobre a Copa do Mundo de 2014. Até uma bandeira
do Brasil foi colocada na entrada. Na porta da Fifa, um Jerome Valcke nervoso
foi surpreendido por um abraço do ministro dos Esportes Aldo Rebelo, que há
apenas poucos meses havia pedido o afastamento do cartola francês por conta de
seus comentários sobre o “chute no traseiro” que o Brasil mereceria.
Mas a cena me fez voltar a pensar em uma questão que há anos tento decifrar:
afinal de contas, quem é que ganha na Copa do Mundo. E quem é que paga…
A Fifa impôs sua lei, assim como fez na África do Sul e na Alemanha. E não
adianta agora dizer que não sabia que seria assim. Em 2007, quando o governo e a
CBF assinaram os documentos, ninguém colocou em dúvida isso. Julio Grondona,
vice-presidente da Fifa, foi claro há algumas semanas em uma entrevista que me
concedeu. “A Copa é da Fifa. Só é realizada no Brasil”, disse. Bebeto, que hoje
atua pelo COL, confessou a mim ontem que era normal essa atitude da Fifa. “Foi o
Brasil quem pediu para sediar a Copa. Fomos nós que solicitamos”, disse.
Ela bem pode ser da Fifa. Mas o que precisa ficar claro é quem é que paga
pelo evento e quem é que lucra com ele exatamente.
Os números são categóricos. Em 2011, a Fifa já fechou contratos comerciais
para 2014 em um valor de quase US$ 1 bilhão e mesmo sua cúpula admite que o
montante é superior às previsões. Até 2014, os contratos chegarão a mais de US$
3,8 bilhões, US$ 600 milhões a ais que na África do Sul e duas vezes superior à
Copa da Alemanha, considerada como um sucesso absoluto.
O governo ainda tem uma nova preocupação: o uso de especificações técnicas
pela Fifa para “empurrar” produtos e serviços justamente de empresas que tem
contratos com a Fifa. A técnica é simples: a Fifa apresenta suas exigências, com
amplos detalhes técnicos. Depois, descobre-se que apenas uma empresa tem a
capacidade de produzir o material ou o serviço justamente como quer a Fifa. Quem
paga…o governo ou os empreendedores das obras no Brasil.
O Ministério dos Esportes afirma estar atento a isso e já foi alertado até
mesmo pelos organizadores das Olimpíadas de 2012, em Londres, de que essa é uma
prática recorrente. O trabalho do governo tem sido o de tentar entender se uma
especificação técnica é algo neessário, ou apenas uma jogada comercial, seja
para gramados, tecnologia em estádios e outros serviços.
Pior, o próprio governo já não sabe dizer se essa estratégia da Fifa já
“colou” em algumas áreas, sem que ninguém tivesse captado a jogada antes.
Lembro-me como, na África do Sul em 2010, perguntei à ministra de Relações
Exteriores do país o que ela recomendaria ao Brasil, diante da experiência que
haviam adquirido em sete anos de preparações. Ela foi contundente: “Façam uma
Copa para o povo brasileiro, não para a Fifa”. Pode já ser tarde demais…


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