Neto de Mário Filho, idealizador do estádio, critica reforma que reduz sua capacidade.

Com a reforma, a capacidade máxima do Maracanã, que já chegou a receber mais de 190 mil pessoas no Fla-Flu que decidia o Campeonato Carioca de 1963, passará para 80 mil. "Meu avô amava ver as torcidas, a festa nas arquibancadas, por isso sempre defendeu um estádio com capacidade superior a 100 mil pessoas. Agora, esse encanto acabou. Nunca mais veremos aquelas imagens do Canal 100, que mostravam o povão no estádio. O Maracanã vai ficar moderno, bonito, mas vai ficar elitizado. O preço do ingresso vai afastar o povão. O espetáculo das torcidas acabou. Eu já virei a última página desta bela história", lamenta.
Mário bate ainda na tecla do custo milionário da obra: "É um absurdo gastarem esta fortuna para o Brasil jogar, no máximo, duas partidas no estádio [de acordo com a tabela, tanto na Copa do Mundo quanto na Copa das Confederações, a seleção só atuará no estádio do Rio se chegar às finais]. Todo este dinheiro poderia ter sido gasto em questões de infraestrutura, como a reforma dos banheiros, por exemplo, sem interferir na capacidade do estádio. Mas a decisão foi outra."

O jornalista critica também a interferência da Fifa nas regras impostas para a realização da Copa do Mundo. "Ela sempre age assim. Sei que as pessoas que têm cadeiras perpétuas no Maracanã estão reclamando porque, durante a Copa, elas não ficarão reservadas para seus donos. O Brasil deveria ter batido o pé e não ter permitido tantas interferências, mas depois da porta arrombada não adianta botar cadeado. A Fifa se impõe assim no mundo inteiro, não só no Brasil", frisou Mário.
Mário Neto, tricolor apaixonado, coleciona histórias no estádio, para onde ia sempre acompanhar seu avô. "Descobri que ele era rubro-negro na arquibancada", conta. Mário Filho sempre se dizia "Fla-Flu", para agradar à mulher rubro-negra, Célia, e aos irmãos tricolores, dentre os quais estava o dramaturgo Nelson Rodrigues.

"Em 1959, fui com meu avô acompanhar um Botafogo X Flamengo. No finzinho do jogo, Dida marcou para o Flamengo e, quando olhei para o lado, meu avô havia sumido. Ele estava no chão, onde caiu após comemorar o gol", lembra Mário Neto, entre risadas. "Ele olhou para mim sério e disse: 'Não tire conclusões precipitadas. Estou feliz porque vamos vender mais jornal'" [Mário Filho era o dono do Jornal dos Sports].
No dia seguinte, Mário Neto ganhou uma bicicleta com um bilhete do avô onde estava escrito: "Fiz a minha parte". "Minha avó ficava perguntando a ele por que havia me dado uma nova bicicleta, já que tinha ganhado uma há poucos meses. Ele só dizia: 'Não se meta que é assunto meu'", relembra Mário Neto. "Eu fiquei quietinho. De vez em quando, na mesa de jantar, eu piscava pra ele, e ele me cutucava por debaixo da mesa".
A sua primeira vez no estádio foi aos 9 anos, e já para conhecer pessoalmente um mito dos campos. "Em 1956, fui ver um jogo entre Bangu e América com meu avô. Zizinho, que já estava em final de carreira, pelo Bangu, era o grande ídolo de meu avô. Depois da vitória por 2 a 1, fui levado até o campo para cumprimentar o jogador", lembra.
Mário também estava no Maracanã naquele Fla-Flu histórico de 1963, com quase 200 mil torcedores nas arquibancadas. "Foi a primeira vez que gritei gol sem ter sido gol. O Escurinho [jogador do Fluminense] estava sozinho para marcar, com o goleiro já caído no chão, mas chutou fraco. Anos depois encontrei ele, que estava trabalhando dirigindo um táxi. 'Eu estou te reconhecendo', disse eu. Ele respondeu de forma objetiva: 'Não me fale daquela jogada'".
Mário não falou da tal jogada, assim como não verá mais, como naquela tarde de 1963, 200 mil torcedores delirando nas arquibancadas do Maracanã.
"Acabaram com o nosso estádio", lamenta.
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