RIO DE JANEIRO - O estádio do Maracanã, na zona norte, fica numa
confluência de bairros -São Cristóvão, Tijuca, Vila Isabel, Grajaú, Benfica,
Estácio, Riachuelo, Andaraí, Rio Comprido-, todos densamente povoados e a
distâncias que dispensam condução. Até há pouco, em dia de clássico, era
emocionante ver a massa indo a pé, de chinelo, para o estádio -aos milhares, em
passo acelerado, com as camisas dos dois clubes vestindo vizinhos de bairro ou
de rua.
E, para quem morasse longe, nunca faltaram trens, táxis e, depois, o metrô. O
carro particular sempre foi a última opção. Em 50 anos de Maracanã, posso contar
as vezes em que fui num deles ao estádio.
Leio agora que, em nome da Copa e por ordens da Fifa, as violências que já se
cometeram contra o Maracanã se estenderão ao seu entorno, a começar pela
demolição do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do Parque Aquático Julio
Delamare. Esses dois equipamentos, em cujas pistas e raias surgiram tantos
atletas brasileiros, irão ao chão para dar lugar a um estacionamento. Mais uma
vez, o esporte é atropelado pelo mais arcaico e egoísta dos meios de transporte,
o automóvel.
As picaretas atingirão ainda o Museu do Índio, prédio de 1865, que o poder
público reduziu a cortiço. Em seu lugar, surgirá uma área de escape, permitindo
que o Maracanã se esvazie em oito minutos em caso de terremoto, tsunami ou
tufão. E, ao lado, a Escola Municipal Friedenreich, admirada por sua eficiência,
também será demolida, para que surjam quadras de aquecimento de atletas.
Para a Fifa, o novo frequentador do Maracanã, depois de estacionar seu Cooper
ou Jaguar, fará compras nos shoppings do estádio, se acomodará num belo
camarote, discutirá Kant com os convidados da CBF e, de vez em quando, dará uma
espiada no jogo pelo janelão que o separa dos verdadeiros torcedores.
Nenhum comentário:
Postar um comentário