Vinicius Konchinski
Do UOL, no Rio de Janeiro
Sergio Moraes/Reuters
Governo do Rio de Janeiro quer transformar área ocupada por índios em local
de evacuação do Maracanã
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, anunciou na quinta-feira que a
compra do antigo Museu do Índio foi concluída. O imóvel, que fica exatamente ao
lado do Maracanã, será agora demolido para dar lugar a uma área de mobilidade no
entorno do estádio.
O antigo Museu do Índio pertencia à Companhia Nacional de Abastecimento
(Conab), uma empresa do governo federal. Cabral afirmou que a propriedade do
local já foi repassada ao Estado do Rio de Janeiro e o pagamento por ela,
efetuado. Durante a negociação da área, ela havia sido avaliada em R$ 60
milhões.
Novo dono do imóvel, o governo do Rio de Janeiro planeja integrá-lo ao
projeto de reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014. Segundo Sérgio
Cabral, a Fifa exige que arenas do Mundial tenham áreas para circulação de
torcedores em sua volta. O terreno em que fica o antigo Museu do Índio será
transformado em uma dessas áreas, afirmou Cabral.
“Eu já desapropriei e paguei [a área do Museu do Índio]”, afirmou Cabral.
“Aquilo será uma área de mobilidade. [O prédio] será demolido. A Fifa exige a
área de mobilidade para circulação de pessoas.”
O prédio do antigo Museu do Índio foi construído no século 19 e está
atualmente ocupado por um grupo de indígenas. Esses indígenas moram lá desde
2006. Decidiram viver no local pois ele estava abandonado há anos. Desde então,
reivindicam a posse da área para transformá-la em um centro cultural. São,
portanto, contrários à demolição do museu.
Índios temem ser expulsos de terreno abandonado ao lado do
Maracanã
Índio fuma
dentro do Museu do Índio, abandonado desde 2006 e localizado em frente ao
estádio do Maracanã em reforma, no Rio de Janeiro. Um grupo de 17 índios de
diversas etnias que ocupa o local teme que as obras para a Copa do Mundo os
expulssem de lá. Está prevista a construção de um estacionamento com 10 mil
vagas no entorno Sergio
Moraes/Reuters
Desde julho, a Defensoria Pública da União acompanha a situação dos indígenas
que moram na área do museu e também a negociação do imóvel. O defensor público
André Ordarcgy já esteve no local conversando com os moradores e avaliando as
características do prédio.
Segundo ele, o antigo museu tem valor cultural, histórico e arquitetônico.
Por isso, não pode ser demolido. Procurado pelo UOL, ele disse
inclusive que deve solicitar na Justiça a preservação do museu caso o governo
insista na sua derrubada.
Para embasar sua ação judicial, Ordarcgy disse que conta com pareceres do
Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) e do Conselho de Arquitetura
e Urbanismo (CAU) que garantem que o prédio não atrapalha a circulação de
pessoas no entorno do Maracanã. Conta também com uma carta assinada pelo diretor
do escritório da Fifa no Brasil, Fulvio Danilas, informando que a entidade não
exige a derrubada no prédio. Pelo contrário, incentiva sua preservação.
Ordacgy disse que uma ação civil pública deve ser protocolada na Justiça
Federal tão logo ele tenha informações suficientes sobre a intenção do governo
estadual. “Acho isso muito estranho. Todos são a favor da preservação. Só o
governo diz que é preciso demolir”, afirmou ao UOL.
O governador Cabral disse na quinta que qualquer órgão tem direito de
questionar a decisão do governo na Justiça. Ressaltou, porém, que o plano de
demolição está mantido e afirmou que não vê nenhum motivo para preservação do
antigo museu. “Não tem valor histórico nenhum."
Carlos Tukano, um dos líderes dos moradores da área, não concorda. Para ele,
o prédio precisa ser preservado e destinado à divulgação da cultura indígena.
Por isso, já avisou que os que hoje fazem parte da Aldeia Maracanã não
abandonarão o local. "Vamos lutar até o fim."
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