Alta temperatura em Manaus durante período de jogos pode afetar desempenho dos jogadores na futura Arena da Amazônia, que deve ser concluída somente em dezembro de 2013.
[ i ] Calor intenso afeta desempenho físico em atividades como
o futebol. Foto: Nelson Ayres/ Divul.
Manaus - Manaus receberá quatro
jogos da Copa do Mundo em 2014. Dois serão às 15h, um às 16h e apenas o primeiro
começará às 21h. Em função das partidas à tarde, seleções de alto nível técnico
tendem a ter o desempenho prejudicado e as disputas na Arena da Amazônia
perderão qualidade com a queda de rendimento dos atletas provocada pelo
calor.
Os horários escolhidos pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) para
atender a interesses comerciais ignoram diagnósticos da medicina. Nela consta a
orientação difundida por médicos de todas as especialidades: atividade física
deve ser praticada até às 10h e após as 16h.
O cardiologista Gerssey da Silva Oliveira, que já trabalhou como médico do
Rio Negro-AM durante nove anos, lembra que apesar do horário não ser o
recomendado, há como administrar o desgaste. “A performance vai diminuir. É
necessário hidratação antes, depois e principalmente durante a atividade física.
Neste caso, seria necessário o intervalo técnico para a reposição de sódio e
potássio dos jogadores”, ressaltou.
A fisiatra e médica do trabalho Núbia Ribeiro explicou que a prática de
atividade física de resistência chega a representar a perda de 2 até 4,6 quilos
em uma hora. “Isso em condições quentes e úmidas, essencialmente pela perda de
suor. A perda de suor é suficiente para reduzir o peso corporal em 3%, diminui o
desempenho físico e uma queda rápida de5 a10% do peso pode acarretar câimbras
musculares, náuseas e outros efeitos. Portanto é essencial que sejam repostos os
líquidos à medida que vão sendo perdidos”, acrescentou.
Segundo o preparador físico José Said Filho, o rendimento dos jogadores pode
decair até 20% por influência das condições do clima. “Com o calor e a umidade,
o desgaste físico torna-se mais intenso, fazendo com que haja uma perda de 15% a
20% de rendimento, pois o aumento da temperatura corporal faz com que o atleta
passe a transpirar mais e corre o risco de se desidratar mais cedo”, revelou
Said.
Em competições de alto rendimento, há uma tendência natural de aumento da
temperatura corporal, independente dos fatores externos. “Nas competições de
resistência, mesmo em condições ambientais normais, a temperatura corporal sobe
frequentemente do nível normal médio de 37 ºC para 40 ºC, isso porque quase toda
a energia utilizada para gerar trabalho muscular se transforma em calor
corporal”, lembra Núbia.
“Essa alta temperatura interna também duplica os ritmos de todas as reações
químicas intracelulares, liberando assim ainda mais calor. Em condições muito
quentes e úmidas ou com grandes excessos de uniformes atléticos, a temperatura
corporal pode atingir 42 graus. Nessa situação pode haver falha do sistema
regulador da temperatura, o que causa desnaturação das proteínas
intracelulares”, descreveu Núbia Ribeiro.
Menos exigênio e maior
temperatura
O prejuízo no rendimento dos atletas pode ser diminuído consideravelmente se
as medidas preventivas corretas forem adotadas pelas seleções que jogarãoem
Manaus. Segundoos especialistas, a aclimatação, alimentação e hidratação devem
ser prioridades das comissões técnicas.
A combinação entre altas temperaturas e atividade física intensa pode ser
perigosa aos atletas de outros países, desacostumados com o clima amazônico.
Conforme a fisiatra Núbia Ribeiro, é necessária a adaptação antecipada, pois a
quantidade de oxigênio presente no ar de Manaus é diferente das outras
localidades do mundo. “A quantidade de calor que nosso organismo gera
internamente é diretamente proporcional ao consumo de oxigênio e esse consumo
pode aumentar em até 20 vezes no atleta bem treinado, o que significa que
enormes quantidades de calor são injetadas nos tecidos corporais internos
durante as provas atléticas de resistência”, exemplificou.
Os tecidos corporais, principalmente os músculos, geram muito calor dentro do
organismo fazendo com que a temperatura interna suba de 37 ºC para 40 ºC.
Além disso, somando-se essa enorme velocidade de fluxo térmico para dentro do
corpo a um dia muito quente e úmido, no qual o mecanismo da sudorese não
consegue eliminar o calor, o atleta pode deparar-se facilmente com uma situação
intolerável e até mesmo letal denominada intermação (a temperatura corporal pode
subir facilmente até 41 ou 42 graus, nível de temperatura que pode destruir as
células teciduais, principalmente as do cérebro. Aí a pessoa pode sentir
fraqueza, exaustão, dores de cabeça,vertigens, náuseas, sudorese profusa,
confusão mental, marcha cambaleante e desmaio). “Se não houver intervenção
imediata pode acarretar até a morte”, alertou Ribeiro.
As intervenções citadas pela fisiatra são: remover toda a roupa do atleta,
manter um borrifo de água sobre todas as superfícies do corpo ou molhá-lo
continuamente, caso não exista possibilidade de imergi-lo totalmente em uma
banheira com água gelada.
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